Há uma ideia que circula com muita confiança hoje: a de que o universo não tem propósito nenhum, que somos um acidente químico entre milhares de milhões de acidentes químicos, e que qualquer sentido que sintamos é só o cérebro a inventar uma história para se sentir melhor. É uma ideia séria, discutida por gente séria. E, mesmo assim, quase ninguém vive como se acreditasse mesmo nela.

Reparo nisto constantemente. As mesmas pessoas que dizem que a vida não tem sentido continuam a acordar cedo para cuidar de alguém, a ficar tristes com injustiças, a procurar deixar alguma marca antes de morrer. Se a vida fosse mesmo indiferente, essas reações não fariam sentido nenhum. E no entanto, fazem, para praticamente toda a gente.

O problema pode não ser falta de propósito, mas excesso de opções pequenas a competir pelo lugar de um propósito grande. Trabalho, consumo, aprovação, entretenimento: cada um promete um pedaço de sentido, nenhum entrega o suficiente, e passamos a vida a trocar um pelo outro sem nos darmos conta.

Há uma resposta antiga e simples a esta pergunta, que não depende de convencer ninguém através do medo ou da culpa: a ideia de que fomos feitos para reconhecer algo maior do que nós, não para O servir como escravos sem escolha, mas porque essa relação, por si só, acaba por organizar tudo o resto. Trabalho, prazer, sucesso continuam a ter lugar. Só deixam de ser o centro.

Isto não resolve a questão de forma definitiva para quem não parte da mesma fé, e não devia fingir que resolve. Mas há um ponto que vale a pena separar da discussão religiosa: mesmo quem rejeita completamente a ideia de um criador continua, na prática, a organizar a vida à volta de algo que trata como sagrado. Família. Legado. Justiça. Arte. Ninguém vive realmente como se nada importasse.

A diferença não costuma ser "ter ou não ter propósito". É se olhamos com honestidade para aquilo que já tratamos como propósito, e perguntamos se aguenta o peso todo que lhe estamos a pôr em cima.

Confesso que também passo por fases em que o dia a dia engole a pergunta maior: levanto-me, trabalho, respondo a mensagens, e semanas passam sem eu voltar a perguntar para quê. O que me traz de volta não costuma ser um argumento. É um momento simples (uma oração feita com mais atenção, uma conversa, uma perda) que me lembra que a pergunta nunca desapareceu, só ficou em segundo plano.

A procura de propósito talvez nunca se resolva de uma vez. É mais parecida com respirar, algo que se faz continuamente, não uma vez só. Já encontraste um propósito, ou ainda o procuras?