Ninguém te perguntou se querias nascer. Apareceste neste mundo sem escolha nenhuma. E, mesmo assim, a maior parte de nós vive como se o resto também não dependesse de escolha nenhuma, como se a vida fosse só isto, entre o nascimento e a morte, sem mais nada antes nem depois.
Há uma ideia no Islão que raramente aparece fora de contextos religiosos: a de que, antes de nasceres, já existias, não como corpo, mas como alma, num estado a que se chama Aalam al-Arwah, o mundo das almas. O Qur'an descreve um momento em que Allah pergunta a cada alma, na Surah 7:172: "أَلَسْتُ بِرَبِّكُمْ" ("Alastu bi-rabbikum"), que se traduz como "Não sou Eu o vosso Senhor?", e cada uma responde: "بَلَىٰ شَهِدْنَا" ("Balā, shahidnā"), "Sim, testemunhamos".
Chamem-lhe o que quiserem (memória perdida, pacto esquecido), mas a ideia central é que a vida que conheces agora é só uma fase, não o início de nada. A primeira das cinco pelas quais, segundo esta visão, todos passamos: o mundo das almas, esta vida, a morte, a sepultura, e o Dia do Juízo.
É fácil viver esquecendo isto. Acordamos, trabalhamos, respondemos mensagens, dormimos, repetimos, e entre uma coisa e outra, raramente paramos para perguntar para onde é que tudo isto está a ir. Tratamos esta fase como se fosse a única que existe, talvez porque é a única que conseguimos ver.
Mas há uma consequência prática nesta ideia, que não é só filosófica: se esta vida for mesmo uma fase entre outras, então nada do que fazes aqui desaparece sem deixar rasto. O Qur'an descreve isto de forma quase matemática: "Quem fizer o peso de um átomo de bem, verá. Quem fizer o peso de um átomo de mal, verá" (Qur'an 99:7-8). Não há ação pequena demais para contar, nem grande demais para ser esquecida.
A sepultura, nesta estrutura, não é o fim: é a quarta fase, o intervalo entre esta vida e o Dia do Juízo. E é só depois dela que chega a quinta: o momento em que tudo o que foi feito, dito, e escolhido é finalmente confrontado.
O que me faz voltar a esta ideia, de vez em quando, não é medo. É uma pergunta mais simples: se soubesses mesmo que nada se perde, viverias hoje de forma diferente?
Não sei se penso nisto o suficiente. Mas quando penso, muda alguma coisa, mesmo que só por umas horas.