Há uma pergunta que parece simples mas não é: para que serve dizer obrigado a alguém que não precisa de nada de ti?
É essa a pergunta por trás da gratidão no Islão. Allah não fica mais completo se O agradeceres, nem mais pobre se O esqueceres. E, ainda assim, o Qur'an promete algo concreto a quem é grato: "لَئِن شَكَرْتُمْ لَأَزِيدَنَّكُمْ" ("La'in shakartum la'azīdannakum"), que se traduz como "Se forem gratos, Eu vos aumentarei."
A resposta óbvia seria: a gratidão é para nós, não para Ele. Mas há uma história que mostra isso de forma mais concreta do que qualquer explicação teórica. Aisha (ra) perguntou uma vez ao Profeta ﷺ porque continuava a rezar tanto durante a noite, ao ponto de os pés incharem, se Allah já lhe tinha perdoado todos os pecados, passados e futuros. Ele respondeu com uma pergunta: "أَفَلَا أَكُونُ عَبْدًا شَكُورًا" ("Afalā akūnu ‘abdan shakūran?"), "Não hei de ser eu um servo agradecido?" (Hadith, Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim).
Essa resposta não faz o que seria de esperar. Não diz "porque tenho medo do castigo" nem "porque ainda tenho pecados por perdoar". A pessoa com menos motivos possíveis para se preocupar com o perdão de Allah, porque já lhe tinha sido garantido, escolhia continuar grata de qualquer forma.
Isso muda a pergunta. Não é "o que ainda preciso de pedir", é "o que já recebi e nunca parei para reconhecer". E a maior parte de nós vive mais tempo na primeira pergunta do que na segunda.
Há uma frase simples que resume isto: o ingrato vê o que falta, o grato vê o que já tem. Não é otimismo forçado, é só outro ponto de partida. A mesma vida, olhada de dois sítios diferentes.
O que acho mais difícil, na prática, não é sentir gratidão nos bons momentos. É lembrar-me dela precisamente quando as coisas não estão a correr bem, que é exatamente quando ela deixa de ser fácil e começa a significar alguma coisa.
A promessa no Qur'an, no fundo, é sobre ver mais do que já tens, não sobre ter mais coisas.